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The Boys acabou — e o final amargo que não consigo parar de pensar

  • Foto do escritor: João Martins
    João Martins
  • 20 de mai.
  • 6 min de leitura


Atenção: este texto contém spoilers da 5ª temporada de The Boys e das duas temporadas de Gen V.


Acabei de assistir o último episódio de The Boys e ainda estou processando na minha cabeça, e a sensação que ficou é difícil de nomear. Não é decepção. Não é satisfação. É aquela coisa que os melhores finais de série sabem fazer: deixar você com uma pedra no estômago que faz sentido.

The Boys acabou. Sete anos. E o que eu estou sentindo agora é uma mistura de admiração pela coerência filosófica do final e de uma raiva genuína por tudo que foi desperdiçado pelo caminho — especialmente quando esse desperdício tem nome e sobrenome: Marie Moreau.

Mas vamos por partes.


O final que não resolve nada — de propósito

Billy Butcher perdeu o cachorro. Perdeu o filho. Ficou de mãos vazias.

Para quem acompanhou a jornada de Butcher desde o começo, essa é a conclusão mais honesta que o show poderia dar para o personagem. O cachorro era o último fio que prendia Butcher à humanidade — o último ser vivo que o amava sem condições, sem julgamento, sem perguntar o que ele tinha feito para merecer. Com o filho o rejeitando e o cachorro morto, o que sobrou?

O que sobrou foi a fala final. E essa fala é a chave para entender por que o final funciona — e por que ele é tão amargo.

Butcher estava certo. Não sobre o vírus — Hughie fez bem em pará-lo — mas sobre o que vem depois. Alguém da Vought vai criar um novo Homelander. A estrutura que permitiu que aquilo tudo acontecesse continua intacta. O problema não era um homem com olhos de laser — era o sistema que o produziu, que o alimentou, que o transformou em ídolo. E esse sistema, no final, continuou de pé.

É um final que recusa a catarse fácil. Não tem "e viveram felizes". Não tem redenção limpa. Tem Hughie e Annie escolhendo viver apesar de tudo, e Butcher escolhendo não destruir o mundo mesmo sabendo que talvez devesse. É a vitória mais pequena possível — e ao mesmo tempo a única que importa.

Faz sentido. Dói do jeito certo.



O problema que não faz sentido: o que fizeram com Gen V

Aqui é onde a admiração para. Porque existe uma diferença entre um final amargo que foi planejado e uma oportunidade desperdiçada que aconteceu por descuido — e The Boys S5 cometeu o segundo crime de forma inexplicável.

Marie Moreau apareceu em menos de dez minutos distribuídos em dois episódios. Em uma série de oito episódios que é o encerramento de um universo construído ao longo de sete anos.

Isso não é escolha narrativa. É negligência.

Duas temporadas de Gen V foram construídas em torno de uma premissa central e poderosa: Marie é potencialmente tão forte quanto o Homelander. O Projeto Odessa, os experimentos de Godolkin, o treinamento dela — tudo apontava para um clímax onde essa personagem teria um papel decisivo no confronto final. O próprio final da segunda temporada de Gen V mostrou Starlight recrutando Marie e Jordan Li para a luta. Era uma promessa explícita.

O que o público recebeu foi Marie aparecendo no episódio 7 para dar um briefing a Starlight, sendo dispensada com um "vai se esconder" e sumindo. A única "revelação" sobre ela foi que seus poderes não funcionam como Gen V construiu. Uma linha de diálogo desfez dois anos de desenvolvimento de personagem.

A internet reagiu com a previsível mistura de raiva e ironia. "O que foi todo o hype de Gen V em torno de Marie sendo potencialmente tão forte quanto o Homelander? Passaram temporadas construindo ela como uma poderosa manipuladora de sangue do Projeto Odessa só para ela ter quase nenhum tempo de tela na reta final", escreveu um fã no Reddit. "Potencial desperdiçado enorme." Outro comentário que circulou capturou a ironia com precisão: "Os personagens de Gen V ficando desapontados com o encerramento abrupto do arco deles é provavelmente como os atores se sentiram."

E é justamente aí que o cancelamento dói mais fundo — porque Gen V tinha em mãos uma das premissas mais ricas que o universo poderia explorar agora: o mundo pós-Homelander.

Pensa no que isso significaria. Um sujeito que se autoproclamou Deus, que dominou militarmente os Estados Unidos, que transformou o patriotismo americano num culto de personalidade com laser nos olhos — esse cara some do cenário. Como a sociedade processa isso? Como os supes que sobreviveram se reinserem num mundo que os temia e adorava ao mesmo tempo? Como a Godolkin University — uma escola que fabricava heróis corporativos — se reconstrói depois de tudo que aconteceu lá dentro?

Gen V era o veículo perfeito para essas perguntas. Jovens personagens, num ambiente de formação, tentando descobrir quem são num mundo que acabou de sair de baixo de um regime de superpoderes. Era a série que poderia ter feito o que The Boys nunca teve espaço para fazer — mostrar as consequências no cotidiano, no chão, nas pessoas que não são Billy Butcher nem Homelander.

Essa história não vai ser contada. E isso, mais do que a cena rápida de Marie no episódio 7, é o verdadeiro desperdício.



O cancelamento que explica — mas não justifica — tudo

Gen V foi cancelada em abril de 2026. E é aqui que a situação fica mais complicada do que parece.

O showrunner Eric Kripke confirmou que o final de The Boys foi escrito muito antes do cancelamento de Gen V ser confirmado — o que significa que ele não teria tido razão para dar a Marie um verdadeiro desfecho, já que provavelmente planejava apenas uma aparição breve como setup para uma terceira temporada do spinoff que nunca veio.

Kripke também confirmou que a terceira temporada de Gen V teria sido a "temporada do treinamento com Yoda" de Marie — onde ela finalmente aprenderia a controlar seus poderes no nível que Starlight sugeriu no penúltimo episódio de The Boys. Toda aquela construção, toda aquela promessa de potencial, estava guardada para um futuro que foi cancelado sem que ninguém tivesse tempo de redirecionar a narrativa.

Uma grande expectativa dos fãs depois do cancelamento de Gen V era que Marie teria um papel muito maior em The Boys S5 para compensar o fechamento do spinoff. Isso não aconteceu.

O resultado é uma personagem que foi construída com cuidado por duas temporadas e chegou ao capítulo final da história sem espaço para existir. Não por má intenção — mas por um descasamento entre planejamento e realidade que o espectador pagou o preço.


A temporada no geral: dividida, mas não desonesta

Seria injusto terminar aqui sem o contexto maior. The Boys S5 foi uma temporada divisiva — o público online demonstrou frustração com o ritmo e com episódios percebidos como filler antes do confronto final. Kripke respondeu apontando para os números: a temporada quebrou recordes de audiência no Prime Video, com 57 milhões de visualizações por episódio — e o showrunner reconheceu ter aprendido mais uma vez que a reação online é "uma fração de pessoas barulhentas e opinativas" que não reflete o que acontece no mundo real.

A comparação com o final de Game of Thrones circulou bastante — mas acho que não é justa. O problema de GOT foi uma traição aos personagens e à lógica narrativa que a série havia construído. Karl Urban chegou a assegurar aos fãs que o final não seria uma decepção no nível de Game of Thrones, e que Kripke se inspirou no encerramento de Breaking Bad para planejar o fim da série. O final de The Boys é coerente com o que a série sempre foi — ele apenas se recusa a ser o que o público queria que fosse.

Essa é uma distinção importante.


O que fica

The Boys foi, em seus melhores momentos, uma das sátiras mais afiadas que a televisão produziu na última década. A crítica ao capitalismo de celebridade, ao fascismo disfarçado de patriotismo, à forma como sistemas de poder sobrevivem independentemente das pessoas que os habitam — tudo isso estava presente do primeiro ao último episódio, e o final não abriu mão disso para dar ao público um fechamento mais confortável.

Butcher perdendo tudo e ainda assim escolhendo não usar o vírus é, paradoxalmente, o ato mais humano que o personagem já fez. E o fato de que isso não muda nada estruturalmente é exatamente o ponto.

A raiva com Marie Moreau é legítima e eu compartilho dela. Mas ela é uma raiva sobre o que poderia ter sido — não sobre o que The Boys decidiu ser.

A série terminou sendo fiel a si mesma. E às vezes isso é o máximo que você pode pedir.

The Boys S5 está disponível completa no Prime Video. Gen V — duas temporadas imperdíveis, especialmente se você quiser entender tudo que foi desperdiçado — também está lá. Vale muito a pena assistir, mesmo sabendo que a história ficou no meio do caminho.


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